quarta-feira, 11 de novembro de 2009
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Hilário
Hilário é ver os figurões falando em democracia interna nos partidos.
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Atílio
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3:54 PM
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Cornelius Castoriadis
Cornelius Castoriadis
(1922 - 1997)
Filósofo, crítico social e psicanalista grego naturalizado francês nascido em Atenas, considerado um dos intelectuais mais capazes e criativos da segunda metade do século XX. Filiou-se (1942) ao partido trotskista, conjunto dos métodos políticos, econômicos e sociais defendidos por Lev Davidovitch Bronstein (1879-1940), dito Trotski, dirigido por Spiro Stinas e, depois da guerra, mudou-se para Paris (1945), integrando-se ao PCI de Claude Lefort. Depois de fundar o grupo esquerdista Socialismo ou Barbárie (1948) rompeu com o PCI francês e fundou (1949) e dirigiu a revista do grupo (1949-1965), que se transformou num espaço de reflexão sobre o autoritarismo para a esquerda. Destacou-se pelo estudo das formas autoritárias do Estado e por uma análise crítica do regime burocrático vigente durante a maior parte do século na ex-União Soviética. Trabalhou como economista para a OECD (1960-1970) e tornou-se psicanalista prático (1974) e diretor de estudos da Ecole des Hautes Etudes en Sociales Sciences (1979). Sua obra maior foi L'institution imaginaire de la société (1975-1989) com sucessivas edições revisadas e ampliadas, mas também destacaram-se Les carrefours du labyrinthe (1978-1997), obra em 5 volumes sucessivos, Capitalisme moderne et révolution (1979), De l'écologie à l'autonomie (1981), entre outros, além de muitos artigos publicados. Em vida uma de suas idéias básicas foi a da autogestão, e morreu de problemas cardíacos, na França.
(1922 - 1997)
Filósofo, crítico social e psicanalista grego naturalizado francês nascido em Atenas, considerado um dos intelectuais mais capazes e criativos da segunda metade do século XX. Filiou-se (1942) ao partido trotskista, conjunto dos métodos políticos, econômicos e sociais defendidos por Lev Davidovitch Bronstein (1879-1940), dito Trotski, dirigido por Spiro Stinas e, depois da guerra, mudou-se para Paris (1945), integrando-se ao PCI de Claude Lefort. Depois de fundar o grupo esquerdista Socialismo ou Barbárie (1948) rompeu com o PCI francês e fundou (1949) e dirigiu a revista do grupo (1949-1965), que se transformou num espaço de reflexão sobre o autoritarismo para a esquerda. Destacou-se pelo estudo das formas autoritárias do Estado e por uma análise crítica do regime burocrático vigente durante a maior parte do século na ex-União Soviética. Trabalhou como economista para a OECD (1960-1970) e tornou-se psicanalista prático (1974) e diretor de estudos da Ecole des Hautes Etudes en Sociales Sciences (1979). Sua obra maior foi L'institution imaginaire de la société (1975-1989) com sucessivas edições revisadas e ampliadas, mas também destacaram-se Les carrefours du labyrinthe (1978-1997), obra em 5 volumes sucessivos, Capitalisme moderne et révolution (1979), De l'écologie à l'autonomie (1981), entre outros, além de muitos artigos publicados. Em vida uma de suas idéias básicas foi a da autogestão, e morreu de problemas cardíacos, na França.
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Atílio
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1:43 PM
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domingo, 8 de novembro de 2009
"Professor: profissão em risco".
O falecimento da professora Suely Portes Zaperlão, ocorrido no último dia 17 de setembro deste ano, chamou a atenção da sociedade, em especial dos milhares de professores e funcionários da região de Londrina. Além do sentimento de tristeza e condolências, a atenção se deu pelas circunstâncias ocorridas anteriores ao triste fato. Após um desentendimento com uma mãe de aluna da escola em que atuava (a professora havia recolhido um vidro de álcool gel da estudante), a mesma foi convocada para uma reunião no Núcleo Regional de Educação. Voltou para casa e, no dia seguinte, amanheceu morta.
A partir daí várias especulações foram feitas: a professora teria se suicidado, desistido da vida em virtude da pressão do trabalho, entre outras. Os médicos declararam morte natural. No entanto, a resposta médica não calou a alma machucada e preocupada de milhares de educadores. Isto porque muitos de nós vimos na professora nossa imagem refletida no espelho.
Neste momento, seria leviano apontar responsáveis pela morte da professora. Culpar pessoas, procedimentos ou atitudes é envolver a situação com o véu apressado da ignorância. Porém, é preciso que se diga em alto e bom tom: A professora é mais uma vítima de um sistema de organização social que privilegia a competição, o individualismo, o lucro em detrimento da valorização do humano. É a lei do salve-se quem puder! Quem sabe nossos filhos possam viver no amanhã em uma sociedade organizada através da lógica da solidariedade, da valorização do humano, da partilha.
Repetimos, seria leviano apontar culpados. Pelo que se sabe, ela enfrentava um quadro antigo de depressão. A morte da filha foi um duro castigo. No entanto, não há como negar que a tensão vivida cotidianamente no exercício da profissão de educar de alguma maneira contribui para o agravamento do quadro de saúde da professora.
É assustador o número de professores afastados da sala de aula em virtude da exaustão profissional. Vários estudos apontam para um quadro de adoecimento dos educadores do país. As doenças de origem psicológica são as que mais afetam a categoria. O número de professores com depressão, com síndrome de burnout e com síndrome de pânico aumenta a cada dia. O trabalho do educador, embora importante e gratificante, se tornou por demais penoso. Infelizmente, a tensão passou a ser um dos componentes presentes no ato educativo. A exaustão emocional que anda de mãos dadas com o professor vai aos poucos destruindo o que de melhor nós temos: a esperança, através da educação, de construir um mundo melhor.
Algo precisa ser feito para alterar este quadro.
A sociedade e o poder público precisam olhar com mais atenção a situação em que vivem nossos educadores. Nossos mestres precisam ser respeitados. Vejamos o que está acontecendo em várias regiões do Estado no processo de reposição das aulas suspensas em virtude da gripe A. Mesmo após o Conselho Estadual de Educação ter dispensado a reposição dos dias mediante o cumprimento das 800 horas de aula exigidas pela LDB (o que garante o direito do aluno aos conteúdos), em muitas escolas a reposição se transformou em um castigo para o educador. Estes, já cansados pelos trabalhos que levam da escola para casa nos finais de semana, têm agora de trabalhar aos sábados até quase o final do ano, no nosso entendimento sem necessidade. Preocupada com a situação, a APP-Sindicato lançou, no mês de agosto deste ano, uma campanha estadual em defesa da saúde dos educadores. No próximo dia 15 de outubro, dia do professor, uma audiência pública na Assembleia Legislativa vai ser realizada para debater o tema.
Concluímos estas considerações lembrando um trecho de uma música do Chico Buarque: "Deixe em paz meu coração que ele é um poço até aqui de mágoa, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água".
Talvez a tensão do exercício profissional da professora Suely Portes Zaperlão tenha sido a gota d'água para o triste episódio. Nós, educadores, não queremos muito. Apenas que a escola seja um templo sagrado do conhecimento. Isto não é possível sem a valorização dos nossos mestres educadores.
Antonio Marcos Gonçalves - professor da rede estadual e presidente do núcleo sindical da APP de Londrina
Luiz Carlos Paixão da Rocha - professor da rede estadual, mestre em Educação e diretor estadual de Imprensa da APP-Sindicato
A partir daí várias especulações foram feitas: a professora teria se suicidado, desistido da vida em virtude da pressão do trabalho, entre outras. Os médicos declararam morte natural. No entanto, a resposta médica não calou a alma machucada e preocupada de milhares de educadores. Isto porque muitos de nós vimos na professora nossa imagem refletida no espelho.
Neste momento, seria leviano apontar responsáveis pela morte da professora. Culpar pessoas, procedimentos ou atitudes é envolver a situação com o véu apressado da ignorância. Porém, é preciso que se diga em alto e bom tom: A professora é mais uma vítima de um sistema de organização social que privilegia a competição, o individualismo, o lucro em detrimento da valorização do humano. É a lei do salve-se quem puder! Quem sabe nossos filhos possam viver no amanhã em uma sociedade organizada através da lógica da solidariedade, da valorização do humano, da partilha.
Repetimos, seria leviano apontar culpados. Pelo que se sabe, ela enfrentava um quadro antigo de depressão. A morte da filha foi um duro castigo. No entanto, não há como negar que a tensão vivida cotidianamente no exercício da profissão de educar de alguma maneira contribui para o agravamento do quadro de saúde da professora.
É assustador o número de professores afastados da sala de aula em virtude da exaustão profissional. Vários estudos apontam para um quadro de adoecimento dos educadores do país. As doenças de origem psicológica são as que mais afetam a categoria. O número de professores com depressão, com síndrome de burnout e com síndrome de pânico aumenta a cada dia. O trabalho do educador, embora importante e gratificante, se tornou por demais penoso. Infelizmente, a tensão passou a ser um dos componentes presentes no ato educativo. A exaustão emocional que anda de mãos dadas com o professor vai aos poucos destruindo o que de melhor nós temos: a esperança, através da educação, de construir um mundo melhor.
Algo precisa ser feito para alterar este quadro.
A sociedade e o poder público precisam olhar com mais atenção a situação em que vivem nossos educadores. Nossos mestres precisam ser respeitados. Vejamos o que está acontecendo em várias regiões do Estado no processo de reposição das aulas suspensas em virtude da gripe A. Mesmo após o Conselho Estadual de Educação ter dispensado a reposição dos dias mediante o cumprimento das 800 horas de aula exigidas pela LDB (o que garante o direito do aluno aos conteúdos), em muitas escolas a reposição se transformou em um castigo para o educador. Estes, já cansados pelos trabalhos que levam da escola para casa nos finais de semana, têm agora de trabalhar aos sábados até quase o final do ano, no nosso entendimento sem necessidade. Preocupada com a situação, a APP-Sindicato lançou, no mês de agosto deste ano, uma campanha estadual em defesa da saúde dos educadores. No próximo dia 15 de outubro, dia do professor, uma audiência pública na Assembleia Legislativa vai ser realizada para debater o tema.
Concluímos estas considerações lembrando um trecho de uma música do Chico Buarque: "Deixe em paz meu coração que ele é um poço até aqui de mágoa, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água".
Talvez a tensão do exercício profissional da professora Suely Portes Zaperlão tenha sido a gota d'água para o triste episódio. Nós, educadores, não queremos muito. Apenas que a escola seja um templo sagrado do conhecimento. Isto não é possível sem a valorização dos nossos mestres educadores.
Antonio Marcos Gonçalves - professor da rede estadual e presidente do núcleo sindical da APP de Londrina
Luiz Carlos Paixão da Rocha - professor da rede estadual, mestre em Educação e diretor estadual de Imprensa da APP-Sindicato
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Atílio
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11:38 PM
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Para onde vamos?
A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio "talvez" porque alguns estão de tal modo inebriados com "o maior espetáculo da Terra", de riqueza fácil que beneficia poucos, que tenho dúvidas.
Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?
Só que cada pequena transgressão, cada desvio vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advém do nosso príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o País, devagarzinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco têm que ver com nossos ideais democráticos.
É possível escolher ao acaso os exemplos de "pequenos assassinatos". Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal-ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira "nacionalista", pois, se o sistema atual, de concessões, fosse "entreguista", deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública.
Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares, se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental numa companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem nenhum pudor, passear pelo Brasil à custa do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso...) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?
Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do "autoritarismo popular" vai minando o espírito da democracia constitucional. Esta supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os "projetos de impacto" (alguns dos quais viraram "esqueletos", quer dizer, obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: "Brasil, ame-o ou deixe-o."
Em pauta temos a Transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no Orçamento e mínguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo Tribunal de Contas da União. Não importa, no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: "Minha Casa, Minha Vida"; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.
Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo "Brasil potência".
Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU - contra a letra expressa da Constituição - vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que se tenha esquecido de acrescentar: "L"État c"est moi." Mas não se esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender o "nosso pré-sal". Está bem, tudo muito lógico.
Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro.
Os partidos estão desmoralizados. Foi no "dedaço" que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são "estrelas novas". Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.
Ora, dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina.
No Brasil os fundos de pensão não são apenas acionistas - com a liberdade de vender e comprar em bolsas -, mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou "privatizadas". Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo, antes que seja tarde.
Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República
Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?
Só que cada pequena transgressão, cada desvio vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advém do nosso príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o País, devagarzinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco têm que ver com nossos ideais democráticos.
É possível escolher ao acaso os exemplos de "pequenos assassinatos". Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal-ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira "nacionalista", pois, se o sistema atual, de concessões, fosse "entreguista", deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública.
Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares, se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental numa companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem nenhum pudor, passear pelo Brasil à custa do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso...) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?
Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do "autoritarismo popular" vai minando o espírito da democracia constitucional. Esta supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os "projetos de impacto" (alguns dos quais viraram "esqueletos", quer dizer, obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: "Brasil, ame-o ou deixe-o."
Em pauta temos a Transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no Orçamento e mínguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo Tribunal de Contas da União. Não importa, no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: "Minha Casa, Minha Vida"; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.
Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo "Brasil potência".
Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU - contra a letra expressa da Constituição - vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que se tenha esquecido de acrescentar: "L"État c"est moi." Mas não se esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender o "nosso pré-sal". Está bem, tudo muito lógico.
Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro.
Os partidos estão desmoralizados. Foi no "dedaço" que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são "estrelas novas". Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.
Ora, dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina.
No Brasil os fundos de pensão não são apenas acionistas - com a liberdade de vender e comprar em bolsas -, mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou "privatizadas". Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo, antes que seja tarde.
Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República
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Atílio
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4:14 AM
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sábado, 7 de novembro de 2009
Porque tanta preocupação?
José Dirceu, o ex-capitão do governo Lula, está preocupado com a candidatura da senadora Marina Silva. Porque tanta preocupação?
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Atílio
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Nietzche - Eugenia, antropotécnica, a polêmica Habermas-Sloterdijk
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Atílio
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7:33 PM
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